ATO V - A altura da relva
A divina diferenciação da natureza ora gera criaturas realmente notáveis, capazes de suprir suas ambições por mais fechada para sonhos que a realidade esteja. Incomoda, mesmo, o eleito antônimo do sonho, a realidade, que é muito bonita, mas está pronta. Um trabalho muito bem-feito, de fato, mas quase inalterável. Esses indivíduos privilegiados são os que mudam os rumos da história, hoje muito menos do que ontem, e muito mais do que amanhã. Os maiores mistérios da vida já foram solucionados, e talvez o próximo gênio seja aquele que possa formular uma nova questão - mas isso é assunto para outro ato. Dessa vez, falaremos da Massa e de seus Heróis.
Falando a nível individual, importa mais o prazer que se tira de suas capacidades do que as capacidades em si. Como a nossa vida resume-se a nós mesmos - resume não é bem o termo, ela se "sintetiza" a nós mesmos, que somos um grande assunto - é muito mais interessante aproveitar a si mesmo do que realizar uma grande obra, e deixar uma permanente marca no mundo. Ainda assim, ser o melhor, ter uma idéia, ganhar uma competição, conseguir o que se quer é muito gratificante. O júbilo pode ter valido o sacrifício requerido ou não. Entre arriscar e não arriscar, a última é preferência. O raro talento deve ser lapidado com a também rara dedicação, portanto o extraordinário é chamado extraordinário por ser realmente uma palavra para as minorias.
O homem que se encontra nesse grupo seleto pode, então, deslumbrar-se consigo mesmo, numa forma doentia da vaidade, que os povos encarnaram em seus Narcisos e Indras. Talvez eles fossem realmente muito bons, mas não conveio a eles nem convirá a ninguém comparar-se aos outros "inferiores". Muito do prazer que se pode encontrar fica bem ali, na altura da relva, da qual pouca gente escapa, mas todos nasce fazendo parte, então é melhor manter-se voando baixo. O julgamento do mundo é um; o auto-julgamento é outro. São tribunais diferentes, em prédios diferentes. Goste de si mesmo, e torça para que os outros gostem também, mas não tente lhes influenciar mostrando o quanto você é bacana. A política é essa aí.


