O Manifesto

São dezesseis anos na cara, um futuro a ansiar e uma concepção do que é, e do que deveria ser. Talvez uma visão lacônica, mas pertinente. Preciso expulsá-la.

Wednesday, August 18, 2004

ATO V - A altura da relva

A divina diferenciação da natureza ora gera criaturas realmente notáveis, capazes de suprir suas ambições por mais fechada para sonhos que a realidade esteja. Incomoda, mesmo, o eleito antônimo do sonho, a realidade, que é muito bonita, mas está pronta. Um trabalho muito bem-feito, de fato, mas quase inalterável. Esses indivíduos privilegiados são os que mudam os rumos da história, hoje muito menos do que ontem, e muito mais do que amanhã. Os maiores mistérios da vida já foram solucionados, e talvez o próximo gênio seja aquele que possa formular uma nova questão - mas isso é assunto para outro ato. Dessa vez, falaremos da Massa e de seus Heróis.

Falando a nível individual, importa mais o prazer que se tira de suas capacidades do que as capacidades em si. Como a nossa vida resume-se a nós mesmos - resume não é bem o termo, ela se "sintetiza" a nós mesmos, que somos um grande assunto - é muito mais interessante aproveitar a si mesmo do que realizar uma grande obra, e deixar uma permanente marca no mundo. Ainda assim, ser o melhor, ter uma idéia, ganhar uma competição, conseguir o que se quer é muito gratificante. O júbilo pode ter valido o sacrifício requerido ou não. Entre arriscar e não arriscar, a última é preferência. O raro talento deve ser lapidado com a também rara dedicação, portanto o extraordinário é chamado extraordinário por ser realmente uma palavra para as minorias.

O homem que se encontra nesse grupo seleto pode, então, deslumbrar-se consigo mesmo, numa forma doentia da vaidade, que os povos encarnaram em seus Narcisos e Indras. Talvez eles fossem realmente muito bons, mas não conveio a eles nem convirá a ninguém comparar-se aos outros "inferiores". Muito do prazer que se pode encontrar fica bem ali, na altura da relva, da qual pouca gente escapa, mas todos nasce fazendo parte, então é melhor manter-se voando baixo. O julgamento do mundo é um; o auto-julgamento é outro. São tribunais diferentes, em prédios diferentes. Goste de si mesmo, e torça para que os outros gostem também, mas não tente lhes influenciar mostrando o quanto você é bacana. A política é essa aí.


Monday, August 16, 2004

ATO IV - Não pare

Diligente, meu relógio tiquetaqueia minha vida. Um minuto, três horas, cinco dias, sete meses, dezesseis anos, a gente mede o que faz nesses termos. Bom mesmo é parar e sentir o tempo passar. Cada segundinho que se esvai, se esvai para que possamos dar um pouco mais de valor ao nosso tempo. São segundinhos mártires!


Conheço pessoas que queriam voltar a ter doze, treze anos, ser criança mais uma vez. Mete medo ouvir as pessoas mais velhas dizendo que os dias correm cada vez mais rápido. Minha mãe, que é professora de matemática, pôs em pauta a teoria: quando o bebê de um ano completa um ano, aquele ano foi a sua vida inteira. Quando o jovem faz sete anos, o ano que se passou foi um sétimo de sua vida. E quando passa-se esse tempo para o adulto de 30 anos, passou-se só um trinta avos do que ele existiu. Então, além de velocidade, este tempo abstrato tem aceleração! Cada dia passará mais rápido que o anterior, e assim sucessivamente, até que eles corram, desenfreados, um piscar de olhos e esticamos os joelhos? É mais saudável uma visão menos anatômica.


O coração do mundo bate a sessenta por minuto. 60 b.p.m., para nós, músicos. E para ouvir o som, não é preciso viajar até Macchu Picchu ou escavar até o núcleo do planeta. Basta encostar o ouvido em um daqueles velhos e belos relógios de parede e curtir o ritmo. Cada um destes segundos, iguais, cadenciados, irrevogavelmente é feito e congelado quando passa, passando a compor os reinos da Causa. O instante é a Conseqüência, mas vai ser mais uma Causa daqui a pouco. Muitos de nós gentilmente amassam isso tudo e jogam tempo fora.


De graça, nós ganhamos a soma de oitenta e seis mil e quatrocentos tique-taques por dia. Num dia especialmente bom, podemos usar todos, mas no geral, guardamos uns trinta mil para descansar. O resto é pra produção e diversão. Invejem aqueles que podem contar cada dia deles como uma experiência nova, um lugar novo, uma pessoa nova. "Ser feliz" é uma meta de vida muito vaga.


Vá correr, beijar, pensar, escrever, malhar, conhecer, passear, brincar, olhar, montar, abrir, fechar, viajar, amar, jogar. Não pare.


Thursday, August 12, 2004

ATO III - O que sobrou do céu

Eu queria escrever da liberdade, da leveza. Mas não consigo sentir-me inspirado. O mundo tomou caminhos estranhos e ver liberdade é uma tarefa para os olhos mais argutos. Quando o ambiente não é suficiente aos poetas, eles culpam a si mesmos por não descobrir a arte em cada cena - por mais trivial que seja - da vida.

Queria escrever da liberdade, do livre pensar e do livre sentir. Às pessoas, porém, são impostas as doutrinas e as emoções de propagandas e de religiões... pouco sobra para o ser independente, que se retrai resignado. A força de um caráter próprio já não mais existe, populações podem ser partilhadas em grupos com tendências previsíveis. Do intrincado jogo, alguns monitoram de cima e colhem os benefícios do culto à coca-cola ou a Deus (com várias designações para consumidores de origens diferentes).

Queria escrever da liberdade ainda que a própria palavra liberdade seja nada mais do que um velho clichê de comício que ainda funciona, vez ou outra, para despertar uma falsa luz nas almas dos que sofrem. Como uma porta brilhante que se abre depois de um precipício - que nunca será atravessada, mas deixa entrar um sopro de brisa. Queria escrever da liberdade apesar de, eu próprio, não saber muito sobre esta dádiva, como uma criança que ora sem saber as palavras. Continuarei procurando a matriz de todas as idéias e, talvez, eu entenda porque são tão raras a revolução e a nova filosofia que partem de uma pessoa que ainda não foi influenciada. Queria escrever da liberdade mas a imaginação já pode ser reciclada, e talvez eu deva desistir.

Quando o ambiente não é suficiente aos poetas, eles culpam a si mesmos por não descobrir a arte em cada cena - por mais trivial que seja - da vida.

Devo eu me culpar? Feliz deve ser aquele que percebe as coisas livres, talvez alguns pássaros (os que não foram enjaulados) e alguns gatos (os que não foram castrados), que cuidam de suas vidas e de seus destinos. Lentamente, pela convivência, talvez esses bichos fiquem um tantinho mais parecidos conosco, os evoluídos homens, e prefiram tomar juízo ao invés de voarem e saltarem, soltos como vagabundos, por aí.

Queria escrever da liberdade, do temor que é a liberdade completa, como o mais forte dos homens precisa de uma parede ou de uma grade onde se escorar e o mais sábio dos homens precisa da crítica para não se afogar na megalomania. Como seres limitados, de corpo e mente finitos, não somos aptos a receber o poder do livre-arbítrio. Dédalo era desumano. Somos todos Ícaros. Nossas asas nos matariam, nos fariam infelizes.

Para nossa própria sobrevivência, fizemos a jaula da sociedade, a gaiola da moral e o cercado da ética. Entre nós, alguns se atiram contra o ferro e alguns querem distância dos limites do nosso viveiro. Dos que quebram a parede e conseguem sair, muitos se arrastam novamente para dentro. Cabe a alguns uma pequena parcela de liberdade somente por saber o que há ao lado de fora, por enxergar através das barras, por ter a capacidade de ponderar, raciocinar, fantasiar. Os poetas devem se culpar, gravemente, quando não enxergam a arte, porque da observação é feito um poeta, e ninguém é pretensioso o bastante para reclamar o direito de uma criação, completamente original, que não tenha sido baseada em alguma outra coisa (mesmo porque tais monstros não existem). Cabe a alguns, poucos, poetas ou não, esta perícia miraculosa de ver a alegria, de observar as aves, de ouvir as nuvens se arrastando pelo céu e enxergar com os olhos da Terra: uma parcela de liberdade que não é o poder infinito, a não ser por comparação aos que não a têm.

Esta parcela... talvez ela resuma o que restou para nós. Desde a criação ou a evolução que nos deu origem, o que perdurou através das eras e vem como um presente aos que têm este talento, o dom do absurdo, que pode ser exercido sem mover um músculo e sem arriscar uma gota de sangue, como uma nobre e reverenciável ação: o sonhar. Meu deleite será, um dia, saber que todos sabem e podem sonhar. Então, talvez eu possa finalmente escrever da liberdade.

Thursday, July 22, 2004

ATO II: É Natural

Vindos da natureza e na condição de animais, devidamente classificados com família e espécie, nossa árvore de antepassados explorada e decifrada, rebentos dos relâmpagos que fundiram as primeiras células, somos nós, seres humanos, um povo completamente explicável, dos pés ao último fio de cabelo!
Comecemos com a brutalidade e os massacres, não só nas grandes cidades, mas em qualquer lugar em que haja espaço para uma pessoa tirar vantagem da outra por meio de assalto físico.
Quem mata, quem morre. Predadores e presas. Assim como o pássaro puxa, desentoca e destroça uma minhoquinha no chão, uma pessoa ou outra quebra as costelas, leva um tiro ou é atropelada. A única diferença é que minhocas são minhocas, pássaros são pássaros e gente é gente, o que basta para que a carnificina vire assunto para telejornal.
Depois, a exploração dolorosa e indireta de todos os sanguessugas, que minam as forças de outros para conseguir sustento fácil e proveitoso, nunca apenas dos sanguessugas econômicos, mas de qualquer indivíduo que tira vantagem de uma posição ou condição para drenar a força, a vontade ou a felicidade alheios. Nunca participam da produção, mas ganham uma grande parcela quando é hora de distribuir o produto.
Quem vai tirar, quem vai perder. Parasitas e parasitados. Assim como o cipó-chumbo suga a seiva e faz murchar a árvore mais bonita e frondosa, uma pessoa ou outra paga impostos injustos, trabalha mais do que ganha ou é culpada de algo que não fez. O que não bate é que cipó é cipó, árvores são árvores e gente é gente, o que basta para que fiquemos revoltados com os preços ascendentes e com os políticos sorridentes.
Em diante, passamos para a competição, quando é cada um por si na guerra por uma fresta de ar fresco e paz, não só na competição por mercado de trabalho, mas em qualquer disputa, um contra um ou muitos contra muitos.
Quem fica feliz, quem fica triste. Vencedores e vencidos. Assim como os ratos cinzentos expulsaram seus primos negros, menos atrozes e de diminuto tamanho da face da Europa, uma pessoa ou outra é superada, justa ou injustamente, pelos esforços ou vantagens de seu adversário. Acontece que ratos de esgoto, de fato, são ratos de esgoto, e... gente é gente! Isso basta para que venhamos a, muitas vezes, sentir o gosto amargo de uma derrota e nos culparmos eternamente por não ter tido treinamento, ou perspicácia suficiente, ou por alguém ter perdido o jogo por nós – aquele alguém em quem confiamos.

Assim como nos libertamos da irracionalidade, devemos rumar em busca do afastamento dos aspectos agora cruéis de nossa própria natureza, tornando-nos pacíficos, condolentes e concordantes na medida do possível. Vida não é vida sem conflito, e existir sem sofrimento é impossível. Nunca deixaremos completamente nossa animalidade, por mais terrível que pareça, mas podemos atenuá-la. Quando pudermos ganhar algo parecido com o que realmente merecemos, estaremos a um passo de uma utopia inalcançável. O último degrau da escada para o paraíso, que não é o paraíso, mas é bastante parecido.

Friday, July 16, 2004


Eu. Posted by Hello

Wednesday, July 14, 2004

ATO I: Inocentes Impostos

Somos, talvez, mais de seis bilhões agora, só contando aqueles que podem pensar na morte. Em busca de conforto de espírito, nossos profetas e apóstolos nos criaram promessas e visões do que temos e do que teremos, ergueram reinos perfeitos, a plenitude num paraíso eterno assim que abandonarmos nossas carcaças. Perambulamos com todos os códigos, morais, condutas, leis, mandamentos, confiando na veracidade do pacote turístico assim que terminarmos de pagar com nossas boas ações.
Relutamos, dia após dia, e de noite, antes de dormir, temos pensamentos mórbidos e lembramos de rezar. Mas onde está a luz em uma pessoa que faz tudo aquilo para aliviar a preocupação de não existir? As palavras mais belas de amar o próximo não deveriam partir de nossa própria consciência? De que valem quilos de Bíblia se ela é obedecida como numa parte de um contrato?
Lutamos, cada um de seu templo, por causa de todos os caminhos diferentes que foram criados para chegar ao ser superior. Com nossas pequenas mentes, julgamos e condenamos as crenças dos outros, às vezes com tiros e facas. Será que ninguém ainda percebeu quanto ódio flui de todas essas religiões? Não somos nós todos iguais? Será que ninguém ainda percebeu que a fé é uma arma que fere, sangra, destrói mais do que todos os mísseis? Irmãos, que se jogam uns contra os outros, talvez tentando com isso chamar a atenção do Pai?
Andamos sobre os passos daqueles que para nós parecem os mais iluminados. Isso nos dá força, coragem, esperança para enfrentar as adversidades da vida. Quando o nosso líder reclama ser representante de uma força maior do que todos, o elevamos aos céus e poderíamos segui-lo até os confins do inferno. E quando ele, com todo o seu carisma e virtude, nos faz atacar o inimigo. Matar suas crianças, derrubar suas casas, violentar suas mulheres, fazer o inferno para os impuros. As noites são marcadas por clarões de fogo, e nosso Deus ouve, ao mesmo tempo, uma oração de celebração e uma oração de misericórdia.
Fazer-se feliz por comparação é o supremo ato de vilania.

Acreditemos por fé própria, por filosofia. Sigamos somente o que é glorioso, e cantemos sentindo a alegria nos preencher. Conversemos, quietos, com nossos anjos, e nunca nos punamos se nossa consciência não fizer-nos merecer. Pensemos na vida, e na nossa felicidade somente, mas lembremos que a nossa alegria é ainda maior quando cuidamos de nossos irmãos e beijamos nossas meninas. Abandonemos tudo que nos prejudique, que nos obrigue, que nos imponha, que nos faça passar por provações ilógicas. Foi nos dada razão por algum motivo, e certamente não fomos feitos para que nos impusessem um modelo pronto de virtude.
Aprendamos que qualquer crueldade atrofia nossa vida e volta contra nós com força redobrada. Sobretudo, tiremos o máximo de nossas existências por não termos certeza do que virá após, o que é lógico, e façamos somente amigos, não adversários, pois deles teremos apenas maus pensamentos. Isso é tão vantajoso e de tanta qualidade moral, que a beleza de viver assim pode vir a superar qualquer conjunto de crenças. E se vierem nos julgar na pós-vida, qual deus condenaria um filho tão puro?